Capoeira traz inúmeros benefícios para crianças

Cada vez mais praticada nas escolas, a arte fortalece a autoestima e amplia a consciência corporal numa mistura de esporte e música

Sânzio Corrêa Fonseca Nascimento (à direita) é professor de Capoeira há 20 anos em várias escolas de Belo Horizonte (Foto: arquivo pessoal)

Desenvolver consciência corporal. Fortalecer a autoestima. Aprofundar a interação consigo mesmo e com o outro. Melhorar a capacidade de movimentos corporais em um jogo dançado e cantado. Ampliar a visão de mundo. Parece uma mistura de aulas de Esportes, Música e Artes, mas não é. Esses são alguns dos benefícios das aulas de Capoeira que têm se tornado, cada vez mais, parte da rotina escolar de muitas crianças.

“Trabalhar a Capoeira na Educação Infantil traz isso e muito mais. Por ser uma atividade artística e cultural, é possível aprofundar a visão de mundo das crianças e investir no conceito de respeito a si mesmo e ao outro”, explica Sânzio Corrêa Fonseca Nascimento, professor de Capoeira há 20 anos em várias escolas de Belo Horizonte. E ele faz uma ressalva: quanto mais novas as crianças, melhores são os resultados.

A Capoeira faz mais. Promove uma interação entre as crianças que não é comum. “Quem trabalha com Educação Infantil costuma falar que, na primeira infância, a criança não brinca com outro, brinca ao lado do outro. Mas a Capoeira tem ferramentas para mudar essa situação, pois só é possível jogar Capoeira com outro”, esclarece Sânzio, conhecido como Mestre Fuinha, nome com o qual foi batizado pela arte que abraçou há quase 30 anos.

O uso do corpo como ferramenta de expressão é outro benefício apontado pelo professor. Ele percebe que as crianças que praticam a Capoeira têm um desenvolvimento motor maior, mais habilidades corporais e facilidade em outras atividades físicas. Segundo ele, “a Capoeira tem uma linguagem corporal e possibilita que a criança conheça e respeite o seu corpo e o corpo do outro”.

Mas os benefícios da Capoeira vão além disso. “Por ser uma atividade artística e cultural brasileira, por apresentar uma musicalidade única, a Capoeira faz com que a criança use o corpo como ferramenta de comunicação para ajudá-la a se colocar na roda da vida. A roda de Capoeira nada mais é, simbolicamente falando, do que a roda da vida”, compara Mestre Fuinha.

Segundo o professor, boa parte das escolas, principalmente as infantis e particulares, têm colocado a Capoeira. “Isso vem acontecendo do ano 2000 para cá”, conta. A sua proposta é consolidar a Capoeira na Educação Infantil, tanto em escolas públicas, quanto em particulares, o que nem sempre é possível.

Capoeira se consolida nas escolas particulares

Mestre Fuinha compara os diferentes níveis de inserção da Capoeira nas escolas particulares e públicas. Na sua opinião, as escolas particulares estão investindo cada vez mais no ensino da Capoeira e as escolas públicas sempre seguem reféns de projetos e programas de governo que oscilam de acordo com a vontade de quem está no comando no momento.

Segundo ele, as escolas particulares onde ele e outros professores dão aulas já inseriram, há alguns anos, a Capoeira no currículo escolar e isso é um avanço significativo. As escolas públicas dependem de programas como o “Fica Vivo”, do governo estadual, com o qual o Mestre Fuinha já trabalhou com crianças e adolescentes. Mas há notícias boas também que merecem ser comemoradas: a Capoeira está inserida no “Escola Integrada”, da Prefeitura de Belo Horizonte.

Apesar do reconhecimento legal, ainda há muito que avançar

A capoeira tem sido cada vez mais reconhecida. Em 2014, a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) declarou a roda de Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Além disso, o mestre Fuinha destacou a Lei 10.639, de 2003, que tornou obrigatório no país o ensino de História e de Cultura Africana e Afro-brasileira nas escolas em sua totalidade.

Porém, de acordo com a avaliação do professor, esses avanços proporcionados pela legislação não se refletiram nas salas de aula. “A lei para inserir a Cultura Africana e Afro-brasileira ainda está no papel. A Capoeira no currículo escolar seria uma excelente opção para se cumprir a lei, mas estamos longe dessa realidade”, constatou.

Segundo o professor, essa situação é lamentável, pois o Brasil é o país mais negro fora da África, o que representa mais de 50% do total dos brasileiros. Na sua visão, ainda há uma série de desafios para se acabar com o racismo. Da mesma forma, também existem uma série de barreiras para que a lei seja de fato implementada com qualidade. As aulas de Capoeira promovem a igualdade das relações. Na roda e na vida ninguém é melhor do que ninguém.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Likes:
4 0
Views:
714
Categorias:
Notícias